Barcos estão mais seguros atados ao porto. Mas não foram construídos para isso. (John A Shedd)

Captura de Tela 2016-05-26 às 10.30.46Todos o admiravam. Deixou de representar o passado para transformar-se em exemplo para o mundo. Foi habitado por pessoas que nunca tiveram oportunidade de participar de algo tão grande. Pessoas que nem sabiam de sua existência descobriram que tinham direitos a embarcação que não foram reconhecidos por comandantes do passado.

As cordas continuam atadas no cais do porto como a séculos. Desde sempre seu movimento depende das marés que vêm do atlântico e batem no cais. Algumas ressacas o mantiveram em alerta, mas manteve-se firme. Antes um símbolo do passado decadente, em poucos anos tornou-se um exemplo de desenvolvimento rumo a modernidade. Há visivelmente muito a ser feito, mas aos olhos do mundo havia deixado de representar um símbolo do passado.

Homens e mulheres que dedicaram seu tempo pessoal e coletivo para sua reconstrução, tendo como base as velhas estruturas enferrujadas, ha tempos demostram seu descontentamento pelo comando da nave não ter desatado suas amarras do cais. Afinal, não foram para isso que trabalharam tanto. A reconstrução de uma embarcação com este porte, trouxe dor e sofrimento para muitos trabalhadores e trabalhadoras. Alguns acidentes graves e interesses contrariados acarretaram conflitos violentos. Parte do comando não vê sentido em por a embarcação em alto mar.  Alguns por medo, outros, porque lucram com sua estada permanente no cais onde está confortavelmente formatado a paisagem.

Havia na embarcação, vozes diferentes nas cabines e sonhos de viagens possíveis a outros portos. Para isso é necessário desprender-se do passado e colocar as velhas estruturas em mar aberto. A embarcação estava sendo preparada para desprender-se do porto. Esta preparação teve inicio com um velho marujo sem patente, que chegou a cabine de comando mostrando aptidão para liderar a tripulação. Quando já não poderia mais estar a frente da cabine de comando, entregou seu quepe de comandante pela primeira vez na história, a uma mulher.

Ondas silenciosas vindas do outro lado do atlântico acabaram por desestabilizar a embarcação. Parte de seu comando enredada com interesses espúrios do passado, aderiu a este movimento que se vê ameaçado pelo progresso da nau, que adquiriu poder inimaginável a tempos atrás. Um motim foi alimentado por interesses locais que lucram com a inércia da nave. Senhores e senhoras da lei utilizam todos os meios, legais e inegavelmente questionáveis do ponto de vista da lei, para manter a embarcação onde está e de onde creem nunca deve sair. A comandante foi afastada de seu posto para defender-se de falsas acusações e desde então a nave passou a ser comandada por um velho e conhecido rato dos porões.

O comandante interino, que não deveria ter poderes plenos, por ser interino, expulsou de sua cabine o garçom e contratou um mordomo, reduziu salários e benefícios da tripulação, determinou que a embarcação fosse atada mais fortemente ao cais. Avisou ao mundo que pretende vender a nave em pedaços para pagar o prejuízo causado as antigas tripulações, que perderam privilegios hereditarios e por quase duas décadas não estiveram a frente do timão.

O Brasil não naufragou, mas depois do golpe parlamentar alimentado pelas elites patrimonialista, patriarcal, colonialista e conservadora se parece mais com a velha caravela vinda de Portugal. Corremos o perigo ter suas riquezas saqueadas e estruturas sucateadas, retornando a um passado de ruínas. Pior do que tudo o que se possa perder, é negar as gerações de jovens das camadas populares o sonho de navegar em mar aberto e aportar em outros cais. É ver sua potencia de poder vir a ser, aprisionada pelas elites corruptas deste país, que levaram hordas de inocentes úteis as ruas, a defender o indefensável com panelas em riste, nunca antes tão fartas de alimento.

Queiram os deuses dos mares, divindades de todas as mitologias, que se possa derrotar os saqueadores de sonhos, e que as camadas populares do Brasil possam tomar o timão em suas mãos e navegar entre os povos, levando solidariedade, respeito, esperança e atitudes de um outro mundo inédito e viável, de um outro mundo possível.

Elogio as incertezas

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As verdades que herdamos são como pontes fixas no tempo. Consolidam caminhos entre dois lados por onde criamos o hábito de passar. Incertezas são a ausência de pontes.

Felizes as criaturas que se aventuram a construir caminhos em desajeitados primeiros passos para chegar no incerto outro lado da sala. Depois que crescem, de ponte em ponte desaprendem a construir caminhos, o habito se torna a principal estratégia de vida para não explorar o incerto, os abismos, os rios, os vãos e margens que estão abaixo do nariz.

Das pontes que nos habituamos algumas têm séculos. Quantas nos sustentam? Quantas ruíram? Quantas nos esforçamos a reformar? Não importa, por sorte todas estão limitadas entre um início e um fim.

Admito que não conheço uma só pessoa que não tenha por habito atravessado quotidianamente em pontes. Mas poucas são aquelas que param no meio da travessia para contemplar o abismo ou o leito do rio.

O que seria da vida se não houvessem pessoas dispostas a soltar as mãos e saltar em águas que não permitem ver além do seu espelho. O que seria da vida se não houvessem pessoas que desafiam o abismo em eternos segundos de liberdade antes de estarem sustentadas por um fio. O que seria do mundo se não fossem as dúvidas, a desafiar os inertes caminhos de respostas habituais que arbitram como pedras a travessia entre possibilidades.

Sinto uma enorme expectativa sempre que me projeto no ante caminho das pontes. Cultivo o habito de contemplar abismos e sempre quando possível, de contornar pontes e caminhos já definidos. Quando não há por onde, utilizo algumas certezas que herdamos, mas sempre que posso, salto!

Me arrisco em busca de novas respostas, para encontrar o inédito na experiência de viver. Sempre que posso, promovo incertezas para dar existência ao que ainda não existe, e fazer da vida, algo que possa ser extraordinário, mesmo que simples, nos instantes em que desafio os hábitos que habitam em mim.

Manaus, 6 de novembro, 2015

Ao meu amado filho Léo.

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Poucas horas antes do seu sobrinho Lucas nascer escrevi a ele uma carta contando como o mundo estava no dia em que nasceria, eu sabia exatamente o dia e a hora do seu nascimento e pela manhã me pus a escrever o que sentia naquele 26 de março de 2008. Isso foi possível pois o Lucas nasceu num parto de cesariana, com você foi diferente.

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A mamãe, como sempre, linda!

Logo saberá que tua mãe é daquelas pessoas que quando entram num lugar, de alguma forma sua presença se comunica com o mundo, seu sorriso, suas poucas palavras e seus gestos são de uma veracidade contagiante. Depois de três anos juntos decidimos compartilhar nossa vida com um filho, que já nasce sendo irmão da Luana e tio do Lucas. Neste momento tenho 45 anos de idade e sua mãe 38 anos e você nem imagina o que ouvimos dos médicos quando iniciamos seu pré-natal. A primeira obstetra que consultamos fez uma lista de probabilidades de doenças em crianças cujos pais têm mais de 30 anos de idade. De tudo o que estudamos sobre o assunto, nenhuma das probabilidades apresentadas se baseava em evidencias médicas, mas em grandes mitos construídos por hábitos nada virtuosos desta profissão.

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Fomos para a rede no seu primeiro dia de vida

Depois de ser pai por 26 anos, e avô há seis anos, não me imaginava sendo pai novamente eis que me fiz a pergunta, por que não? Afinal, não sou um bom pai? Não tive dúvidas e foste concebido num momento dedicado ao amor e ao prazer. A confirmação de tua existência foi uma enorme alegria.

Durante nove meses fomos os mais atenciosos aos detalhes que um casal de virginianos pode ser. Entre as decisões perfeitas e imperfeitas que experimentamos, a decisão que você nasceria no seu tempo foi a mais natural de todas as decisões apesar de contrariar a norma, pois, normal hoje em dia é mulheres darem a luz às crianças com hora marcada em hospitais com salas geladas na temperatura e na ausência de calor humano.

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Ana do Grupo Parto Domiciliar Bem Querer
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Você cabia nesta linda barriga.

Tua mãe queria ter certeza de que não seria violentada por uma concepção de que toda a gravidez é uma doença cheia de problemas e deve ser curada. Buscamos acesso a todas as informações disponíveis, lemos quase tudo que chegou em nossas mãos, assistimos uma quantidade enorme de partos em vídeos na internet, consultamos com frequência dois obstetras humanizados e um grupo de parto domiciliar, mantivemos contato com a Mariana Lettis, uma carinhosa amiga Doula. Haviam duas possibilidades: sua mãe ser assistida por um obstetra humanizado em uma maternidade e a outra que você chagasse a este mundo em sua própria casa, melhor, em seu próprio quarto. Sua mãe ficou incumbida da decisão final, e confesso, depois de tomada a decisão, tive de enfrentar meus próprios medos. Nasceste as 6h10 minutos do último dia 8 de dezembro, depois de doze horas de um lindo trabalho de parto assistido pelo grupo Bem Querer Parto Domiciliar. Dei-me conta no passar das horas, que acompanhar um parto jamais deveria ser uma atividade masculina. Busquei colaborar no que podia, e podia muito pouco além da vontade de ajudar: encher a piscina plástica montada em seu quarto, mantivemos a água aquecida, preparei uma mesa com frutas e lanches para a longa noite. Busquei estar perto de sua mãe durante todo o tempo, pegar em suas mãos, abraçá-la, massagear suas costas, encorajá-la…. como se fosse preciso. Continuar lendo Ao meu amado filho Léo.